9 de ago de 2009

ME DÊ O BRAÇO



Das lembranças que guardo da infância, uma é bastante especial. A última vez que me lembro dos meus pais saindo juntos comigo para algum evento. Não lembro a idade que tinha, provavelmente uns cinco ou seis anos, pois tinha sete quando eles se separaram. Fomos para uma apresentação do “Carnaval no Gelo”, como era chamado um grupo internacional que se apresentava pelo mundo todo. Para nossa cidade, a visita era um acontecimento.
Fui com eles, mas na condição de ficar na casa de um amigo do casal, caso o espetáculo fosse proibido para menores se eu não pudesse entrar. O evento era à noite e nessa época crianças não costumavam circular neste horário.
Mesmo com a minha pouca idade, gostava de ver a forma como meu pai se comportava com a minha mãe quando saíam. Era algo solene, respeitoso, como a querer a dizer para o mundo; Esta é minha mulher. Sou bem satisfeito em tê-la. Olhem como ela é linda, e é minha.
Do espetáculo, para ser sincera, não me lembro de nada. O que ficou na minha memória foi a ida até o local. Ou melhor, o pequeno, mas solene espaço de tempo em que minha mãe deu o braço ao meu pai e saíram andando pela rua, imperiosos, rei e rainha com sua princesinha de lado.
Quando eu já estava um pouco mais crescida, tomei o lugar da minha mãe, que para ele, não mais existia, ao seu lado. Sempre que saíamos ele pegava o meu braço e colocava entre o seu e íamos os dois felizes pelas ruas.
Eu adorava andar com meu pai. Embora a gente parasse a cada 10 metros, porque na época ele era jogador de futebol, e uma pessoa bastante conhecida na cidade. Quando as pessoas me elogiavam, ele engrossava o cordão enumerando as minhas virtudes. Gostava de falar, que já era alfabetizada das minhas altas notas na escola, que eu era a primeira da turma, etc... Às veze eu me encabulava com tais comentários, mas sempre o desculpava dos excessos, pois era meu amado pai. Ele adorava exibir as filhas, eu e minha irmã, e notava-se o orgulho que sentia de nós duas, uma em cada braço.
Meu pai já não está comigo, mas as lembranças boas ficarão para sempre. Além, muito além das lembranças, o sentimento bom de amparo, confiança, satisfação, e presença constante em toda minha vida. Às vezes, quando a vida não está fácil, sinto falta de sua presença, mas agradeço a Deus o fato de ter tido um grande pai.
Hoje em dia, não seu usa mais andar de braços dados. Os namorados, nem se dão mais as mãos para passear. Meu companheiro deve até estranhar quando algumas vezes eu procuro seu braço quando caminhamos. Ignora que ajo por instinto. Foi assim que aprendi e pratiquei a vida inteira. Tento resgatar um tempo bom, um momento de alegria. Já ouvi dizer que a felicidade está nas coisas simples, e concordo plenamente. Nada tão simples do que uma filha dar o braço ao pai e sair pelas
Ruas, mas a magia que este pequeno ato em mim operava, me acompanha a acompanhará para sempre, num halo de luz e bem-estar eternos..
Um feliz dia dos Pais, onde você estiver, meu beijo, meu agradecimento e meu a braço.